Qual o papel do financeiro de uma empresa frente às eleições?
Por que o financeiro de uma empresa deve analisar a situação, desenhar cenários e preparar as decisões, em vez de planejar com base na torcida.
Com as eleições chegando neste domingo, tem rolado muita torcida e muita preocupação dos dois lados.
E no meio disso, qual o papel do financeiro de uma empresa frente às eleições?
Spoiler: não tem a ver com adivinhar cenário nem com sair apostando em candidato (ou em promessa de campanha).
Bora começar com um resumo.
Igual muita coisa em Finanças, o bom senso é o que manda:
Quem é financeiro precisa analisar a situação da empresa, desenhar cenários e preparar as decisões.
"AH MAS ISSO AÍ É O BÁSICO!!!"
É, pois é.
Parece básico mesmo, mas é fácil deixar a torcida tomar conta e começar a planejar como se o resultado desejado fosse garantido (ou o mais provável).
E do outro lado, também é fácil deixar a raiva tomar conta e sair fazendo besteira movido pela emoção.
O primeiro passo é entender de onde a empresa está partindo.
Qual o ponto de equilíbrio?
Como está o caixa?
Como está a liquidez de curto prazo?
A empresa gera caixa? Tem ciclo financeiro positivo ou negativo?
Tem dívida? A dívida é relevante?
Qual a exposição a juros e câmbio?
Antes de discutir o que cada candidato pode fazer, precisa saber onde está o risco.
Depois que você souber onde a empresa está, você pode começar a desenhar alguns cenários.
O que acontece com o caixa se o crédito encarecer?
E se o dólar subir?
E se o mercado aquecer de uma vez ou se as vendas caírem?
E se a inadimplência aumentar?
Aqui, você já pode ver o que cada candidato está falando, julgar o que é factível e o que não é (com o máximo de objetividade possível) e definir suas premissas.
Sabe aquela história de "cenário base, otimista e pessimista"?
Então, tem que colocar essas premissas em números.
Aliás: se a sua empresa é pequena ou média, isso é ainda mais importante.
A gestão de uma empresa grande, com acesso a crédito e a mercado de capitais, é muito diferente da gestão de PME.
Não dá para simplesmente achar que o crédito vai estar lá quando a empresa precisar.
Primeiro que muito do que o governo anuncia (alô, linhas do BNDES) não chega na ponta para as PMEs.
Segundo que banco gosta de emprestar para quem não está precisando.
Aqui, a dica é: mantenha relacionamento com os bancos, e de preferência com mais de um banco.
Desenhou os cenários?
Então agora tem que desenhar as respostas.
Quando você adia um investimento?
Quando você começa a renegociar a dívida (antes de vencer, de preferência...)?
Precisa reforçar o caixa ou começar a pensar em renegociar prazos com clientes e fornecedores?
"MAS VOCÊ NÃO FALOU NADA DOS CANDIDATOS!!!"
Sim, porque essa parte você precisa analisar considerando a realidade da sua empresa.
Uma mesma medida pode beneficiar um negócio e prejudicar outro.
O cuidado é não aceitar qualquer promessa do seu candidato e tratar qualquer proposta do outro como desastre.
A análise tem que focar no que pode acontecer com o seu mercado e com o seu negócio, e o resultado das eleições é um fator de influência, mas a sua torcida não.
E quanto mais você torce, menos objetividade para analisar você tem.
Texto publicado originalmente no X, em 23 de outubro de 2026.