HABEMUS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS DOS CORREIOS!
Diz a empresa que houve uma “recuperação operacional”.
Bora lá ver o que tem de verdade nisso e o que tem de wishful thinking.

Primeiro, pra vocês não falarem que eu SÓ FALO MAL, segue um sinal positivo para a operação da empresa:
Custo com pessoal caiu 4,2% entre 1S2025 e 1S2026 (-R$ 233,7 milhões).
Isso fez com que o Lucro Bruto aumentasse 17,7%.
(Uma pena que esses 17,7% signifiquem R$ 41 milhões.)

“UÉ DANIEL, MAS O LUCRO AUMENTOU!”
É, pois é, mas olha A MARGEM.
A margem aumentou 0,6 p.p., ou seja, ficou praticamente estável.
A Receita Líquida caiu 3,9% e os Custos caíram 4,5%.
Apesar de estar na direção certa, é muito pouco para representar uma melhora significativa.
Não dá para falar em um grande avanço operacional se a empresa tem R$ 7,9 bilhões de receitas e deixa só R$ 274,5 milhões de lucro bruto.

Mesmo nas Receitas, o aumento em Mensagens e Serviços de Logística (dentro da subconta “Outros”) é insuficiente para fazer frente à queda das receitas do segmento internacional (-56,5% na comparação entre semestres – redução de R$ 460,4 milhões).
A receita bruta caiu R$ 318,7 milhões, equivalente a 3,7%.

Nas Despesas Comerciais tem algo interessante.
Apesar da queda de ~4% nas Receitas, houve um AUMENTO de 7,3% em despesas comerciais.
Destaques:
Unidades Terceirizadas: +1,7% – R$ 14,8 milhões.
Indenizações por SLA: +141,9% – R$ 22,3 milhões.

Segundo a nota explicativa, no caso de Unidades Terceirizadas, “o acréscimo de R$ 14.844 na despesa está diretamente relacionado ao aumento no volume de receitas comercializadas e ao reajuste tarifário aplicado no período.”
Não deixa de ser curioso que mesmo com as receitas globalmente em queda, ocorra um aumento na remuneração de unidades terceirizadas.
“ENTÃO TEM MUTRETA???”
Não sei, ué.
Pode muito bem ser relacionado à composição de receitas e aumento justamente na rubrica que precisa remunerar terceirizados.
De toda forma, em uma crise como é a dos Correios, é bom ficar atento.

No caso do SLA, eu já falei no texto anterior, e é sempre meio triste.
Isso aí são multas porque a qualidade do serviço piorou.
Segundo a Nota: “O aumento de R$ 22.287 nas indenizações, em relação ao primeiro semestre de 2025, decorreu, principalmente, da elevação da quantidade de objetos entregues fora do prazo. Desse total, R$ 30.477 foram reconhecidos até 31/03/2026.”
Dizer que a maior parte é do 1o trimestre não é exatamente uma justificativa boa, convenhamos.

Aliás, é difícil conciliar esse aumento nas indenizações aos clientes dos Correios com esse comentário da administração, que fala de “melhora dos indicadores de qualidade operacional“.

Nas Despesas Administrativas, a principal piora foi em Contingências Judiciais, que são revisões de estimativas e da reavaliação dos riscos associados às ações trabalhistas já existentes.
Isso não costuma ter efeito imediato no caixa, mas significa um provável aumento de gasto futuro.
Essa conta foi em parte contrabalanceada pela menor incorrência em Precatórios, levando a um aumento global nas Despesas Administrativas de R$ 494 milhões (+15%) e a um aumento nas Despesas Operacionais como um todo de R$ 753,5 milhões (+19,2%).

Com isso, o Prejuízo Operacional dos Correios chega a R$ 4,41 bilhões no 1S de 2026, um aumento de 19,3% em relação ao mesmo período de 2025 (aumento de R$ 712,2 milhões no prejuízo).
A margem operacional passou de –45,2% para –56,1%, portanto dizer que houve uma “melhora operacional no primeiro semestre” não se sustenta quando comparamos com o 1S25.
Ainda assim, entre 1T2026 e 2T2026, a margem operacional teve uma melhora, passando de -65,2% para -47,1%.

A gestão alega também que houve um alongamento da dívida e a troca de uma dívida cara por uma mais barata.
É verdade.
O ponto de atenção aí não é surpresa nenhuma:
O Resultado Financeiro negativo mais do que dobrou, passando de R$ 525 milhões para R$ 1,13 bilhão (aumento de 116% – R$ 609 milhões).

Apesar de ter um aumento nas Receitas Financeiras por rendimento de aplicações (R$ 435,5 milhões a mais que 1S 2025), isso é pontual: é só a remuneração de recursos do empréstimo que ainda não foram utilizados.
O aumento nos encargos da dívida, por outro lado, é de R$ 1,1 bilhão.

O prejuízo líquido cresceu 30,4% – R$ 1,3 bilhão.
O resultado passou de prejuízo de R$ 4,26 bilhões para prejuízo de R$ 5,55 bilhões.
A margem líquida saiu de –52,0% para –70,6%.
Em outras palavras: para cada R$ 100 de receita, os Correios perderam perto de R$ 71 no 1S26.

Comparando trimestres:
No 2T 2025, o prejuízo líquido foi de R$ 2,5 bilhões – margem de -59,7%
No 2T 2026, o prejuízo líquido foi de R$ 2,4 bilhões – margem de -59,6%
Cadê tal melhora?
Teve uma mudança pontual operacional, que ainda não dá para saber se é uma melhora estrutural ou não, mas isso foi absorvido no financeiro.

Agora, o Fluxo de Caixa (é rápido).
O caixa consumido pelas operações passou de R$ 266 milhões no 1S25 para R$ 4,42 BILHÕES no 1S26.
“ENTÃO O FCO PIOROU R$ 4,2 BILHÕES?”
Não exatamente.
O número de 2025 parecia melhor porque os Correios estavam acumulando obrigações em vez de pagar (ou seja, atrasando pagamento, mesmo).

Só no 1S25, o aumento de Fornecedores, Salários e Encargos, Precatórios e Postal Saúde segurou quase R$ 3,7 bilhões no caixa.
Em 2026, aconteceu o contrário: parte dessas contas represadas foi paga com os recursos da nova dívida.
Ou seja: o caixa de 2025 parecia melhor porque a empresa NÃO ESTAVA PAGANDO as contas.
Lembram dos aumentos no passivo com benefícios e encargos trabalhistas? Então.

Mas também não significa que esteja tudo bem.
Antes das variações de capital de giro, os Correios consumiram cerca de R$ 3,84 bilhões no 1S26, contra R$ 4,06 bilhões no 1S25.
Houve uma pequena melhora, mas o problema central permanece:
A operação ainda consome perto de R$ 4 BILHÕES POR SEMESTRE.

No 1S26, os Correios reduziram os atrasos de pagamentos usando o recurso captado com aval da União.
Minha conclusão?
Houve redução de custos com pessoal e alguma melhora entre o 1T e o 2T – algum resultado o PDV deu.
Mas entre semestres a receita caiu, o prejuízo operacional aumentou 19%, o prejuízo líquido cresceu 30% e a operação continua queimando bilhões.
Os Correios ganharam tempo com uma dívida garantida pelo Tesouro, mas ainda não transformaram esse tempo em resultado e muito menos em geração de caixa.
Por enquanto, chamar isso de “recuperação operacional” é wishful thinking.
