A falácia do novembro azul e do rastreio do câncer de próstata.
Por que o rastreio do câncer de próstata com PSA não reduz a mortalidade geral e quais danos ele traz para pacientes sem sintomas.
Leitura ACRÍTICA de recomendações de sociedades de especialidade NÃO são suficientes pra embasar sua prática clínica.
— A FALÁCIA do novembro azul e do rastreio do câncer de próstata.
Um texto sobre rastreio e diagnóstico precoce.

A Sociedade Brasileira de Urologia recomenda rastrear câncer de próstata a partir dos 50 anos (ou 45 com fatores de risco) com PSA e toque retal.
Porém, antes de entrar nessa discussão, precisamos de alguns conceitos básicos acerca de rastreios que eu trouxe no fio abaixo:
Exames de check-up NÃO são os maiores determinantes da prevenção — inclusive, podem ter malefícios.
- O que são testes de rastreio?
- Como avaliar quais são BONS testes de rastreio?
Entendendo porque o senso comum não se aplica em exames em pacientes assintomáticos.
Agora que já temos o básico temos que refletir sobre a pergunta:
— Quais são os meus objetivos ao recomendar algo para o meu paciente?
E a resposta dessa pergunta é Quality-Adjusted Life Years (QALY) — um índice que significa basicamente qualidade de vida e sobrevida.

E aqui nos debruçamos no 1° problema:
— Se testes de rastreio são exames realizados em pacientes assintomáticos, não tem como eu melhorar a qualidade de vida deles.
Isso aliado aos tratamentos pra câncer terem alta morbidade nos leva a conclusão: PRECISA reduzir mortalidade.
“E reduz?”
Pra responder essa pergunta, um grupo de autores, publicou uma revisão sistemática no BMJ em 2018.
Nesse estudo, foram avaliados 721.718 pacientes, como o objetivo de comparar o rastreio do CA de próstata com cuidados habituais em indivíduos assintomáticos.

O resultado?
— Rastreio de CA de próstata não reduz mortalidade geral (RR 0.99 | IC95 0.98-1.01).
E aqui entramos no problema real: se eu não reduzo a probabilidade do meu paciente morrer de câncer e ele não tem sintomas, o que eu ganho?
— Dano. É isso que você ganha.

E pra exemplificar isso, vamos pegar o ERSPC, que supostamente é o trial que alguns usam pra afirmar que vale a pena.
Dos 162.387 pacientes que foram avaliados, 20.486 PSAs foram positivos.
Na confirmação por biópsia, 13.308 (75.9%) tiveram um resultado falso-positivo.

Sim, ~76% dos pacientes submetidos a biópsia fizeram o procedimento de maneira desnecessária — PSA é um exame RUIM para rastreio de CA de próstata.
A incidência cumulativa de CA foi de 8.2% no grupo rastreio e 4.8% no grupo controle — algo totalmente esperado para um rastreio.

Resultado: sem redução de mortalidade geral.
“mas mortalidade por CA de próstata reduziu em 20%”
Só que esse não é o nosso objetivo. Em rastreio objetivamos redução da mortalidade geral.
Isso por 2 motivos:
a) Mortalidade específica é um desfecho extremamente subjetivo.
b) O objetivo é aumento de sobrevida.
A) Mortalidade específica é subjetiva:
- Nem sempre a causa do óbito é clara. Por ex: o paciente tem uma trombose — foi pelo CA?
- Médicos tendem a não colocar o câncer como causa do óbito se o paciente tiver sido tratado precocemente.
- Não adianta não ter CA no atestado de óbito se não tiver aumento de sobrevida.
B) Sobrevida:
Aqui remetemos a analogia clássica do Welch.
O tumor que queremos rastrear é o coelho, aquele que causaria a morte do paciente.
Os tumores de próstata que habitualmente rastreamos são as tartarugas e lesmas — onde o paciente é submetido a todo o DANO do tratamento e não tem nenhum ganho de sobrevida.

“E quais são os danos?”
De volta a revisão sistemática, a cada 1408 homens rastreados:
- 63 com dor pela biópsia.
- 4 com incontinência urinária.
- 35 com uma ereção que não é firme o suficiente para ter relações sexuais.

Em resumo — mesmo se considerarmos redução de motalidade específica (o que está errado):
- Teríamos que rastrear 1408 homens para prevenir 1 morte (falsa).
- 173 seriam biopsiados desnecessariamente.
- 70 seriam diagnosticados com CA.
- 4 ainda morreriam e 40 ficariam incontinentes ou impotentes.
E aqui vale a pena lembrar:
— Decisão compartilhada não é aval pra medicina a la carte.
Não tem porque falar de custo-efetividade em algo que não é efetivo.
Os pacientes buscam o rastreio por expectativas irreais de aumento de sobrevida e melhoria de qualidade de vida.
Inclusive, prevenção de CAs é recomendada. Só que é com mudança de hábitos e não exames periódicos (salvo algumas exceções como colonoscopia ou papanicolau).
Talvez essa seja a maior nuancia, não da pra pegar a opinião de qualquer sociedade de especialidade sobre qualquer assunto!
Idealmente ler a opinião de algumas e ver se existe contraste na recomendação pode ajudar. Por exemplo, nesse caso, a maioria das sociedades contraindica.
Quando falamos de qualidade de vida, estamos falando sobre um paciente assintomático que vai ter um aumento de probabilidade de dano presente pra um trade-off de possível benefício futuro.
Não adianta reduzir mortalidade por câncer se meu paciente não tem aumento de expectativa de vida — e nem sabemos se realmente reduz mortalidade por câncer considerando que causa mortis é bem subjetivo.
Publicado originalmente no X, em 24 de setembro de 2023.