Afinal, quem mandou bloquear a poupança?
Em 2014, o PT disse que André Lara Resende planejou o confisco da poupança no Plano Collor. Segui as versões dessa história desde 1997: a única fonte é o próprio Collor, e o relato muda a cada entrevista.
O economista André Lara Resende já foi um desafeto do PT, como mostra esta postagem no site do partido de 2014. O título dizia que ele planejara o confisco da poupança (no Plano Collor, 1990). Já o corpo apenas fala que apoiou. Estranho. Decidi investigar as fontes.

Três dias antes (01/09/2014), um artigo do Correio do Brasil, republicado pelo Vermelho, dizia que Fernando Collor contava em livro que Lara Resende foi uma de suas inspirações.
Em 03/09/2014, o Blog do Mello citou uma coluna de Luis Nassif na Folha (2005) e chamou Lara Resende de “responsável pela ideia do confisco”. Sem link para a Folha.
Voltando no tempo, a versão mais antiga da narrativa é “Crônica de um golpe”, memórias que Collor escreveu em Miami depois do impeachment. O 1º capítulo saiu em 1º/10/1997, no site collor.com e na Veja. O livro nunca foi impresso (verbete no Atlas FGV).
Em fevereiro de 1998, Collor postou os capítulos sobre o plano. Neles, Lara Resende sugere congelar os ativos, Dantas salta da cadeira e Lara Resende recua: estava “só colocando uma alternativa”. Local da conversa: anexo do Itamaraty (Acervo Estadão, 19/02/1998).
Em 2001, Daniel Dantas, a outra testemunha, confirmou à IstoÉ Dinheiro reuniões com Collor, Lara Resende e Simonsen. Disse que nunca sugeriu confisco e que Collor queria algo “mais mágico”. Não atribuiu a ideia a Lara Resende.
Em 2003, também à IstoÉ Dinheiro, Collor falou de uma reunião em Brasília, no início de janeiro de 1990. Nela, Lara Resende teria dito que o bloqueio era “a medida correta para evitar a hiperinflação”. Mas os três economistas o achavam politicamente inviável. Collor também disse que a ideia do bloqueio rondava todos os economistas da época, mas ninguém dava nome a ela. E cita quem Zélia ouvia: Belluzzo, João Manuel Cardoso de Mello, Andrea Calabi, Pérsio Arida.
Em 2005, na Folha, a Luis Nassif, Collor põe a reunião na casa de Simonsen. Agora é Dantas quem diz que a ideia é “politicamente inviável”, e Lara Resende insiste que tecnicamente é o único caminho.
Ponto-chave: na própria versão de Collor (2003), a cinco dias da posse as contas correntes não estavam no plano. Quem pediu para incluir “tudo, até a conta corrente” foi Ibrahim Eris, do BC, que ameaçou deixar o governo se não fosse atendido.
Na entrevista de 2005, Collor diz que foi Eris quem mostrou que o bloqueio teria de atingir a poupança. A extensão às contas correntes teria sido decidida 72 horas antes da posse. Lara Resende não figura nesse detalhamento.
Em 2020, em live com Nassif na TV GGN, veio a versão mais dura de Collor. Nela, Lara Resende não recua, mas diz que a ideia “pode não ser das melhores, mas é a saída”. Só Simonsen fala em inviabilidade política, e Collor decide “torná-la viável”.
O que dizem os jornais da época? Em 09/01/1990, o Estadão registra que Simonsen levou a Collor, com Dantas e Lara Resende, propostas escritas, como fixar em sete dias o vencimento das operações de mercado aberto. Nenhuma fala em bloqueio. A mesma matéria descreve a disputa interna: Zélia, gradualista, contra uma ala “ortodoxa”, ligada a Dantas, que queria um choque mais drástico. E Zélia garantia que não haveria confisco nem feriado bancário.
Há uma outra atribuição. Num estudo sobre a gênese do plano, Carlos Eduardo Carvalho cita Fernando Sabino (1991): o bloqueio teria sido sugerido a Collor por… Daniel Dantas! Lara Resende não estava na equipe de Zélia. Segundo Carvalho, quem montou o plano (Kandir, Eris, Assis e outros) já tinha se convencido do bloqueio na segunda quinzena de dezembro de 1989. Ou seja, antes da reunião de janeiro narrada por Collor.
Nas diferentes versões de Collor (por ano da declaração), Lara Resende:
- 1998: “colocou uma alternativa” e recuou
- 2003: disse que era “a medida correta”
- 2005: insistiu que era “o único caminho”
- 2020: disse “é a saída”
Em publicações de 2014, Lara Resende foi:
- “inspiração” (Correio do Brasil, 01/09)
- “responsável pela ideia” (Blog do Mello, 03/09)
- “planejou” (PT, 04/09)
- “convenceu Collor” (blog, 02/10)
À medida que a eleição se aproximava (lembrando que era o auge da campanha eleitoral de 2014, com Marina sendo uma forte concorrente a Lula), as versões ficavam mais duras.
Perceba um detalhe fundamental: a única fonte é o ex-presidente Collor - em relatos tardios e que mudavam a cada versão.
Entre apresentar proposta para reduzir a liquidez (algo que tem embasamento em outras fontes) e ser o planejador do confisco da poupança (o que é apresentado no site do PT) há uma enorme distância.
O uso de relatos anedóticos (sem embasamento formal) em campanhas políticas não é novidade e nunca deixará de ocorrer, mas não é o que deve nortear alguém que estuda o tema a fundo.
Uma declaração deve ser vista pelo que é: algo anedótico por definição. Enquanto não houver outros indícios ou elementos que corroborem a narrativa, deve ser apresentada como tal.
A pesquisa detalhada das fontes é fundamental para chegar à raiz das narrativas. Com as LLMs, esta tarefa se tornou muito mais fácil e rápida (esta própria matéria contou com ajuda do Claude AI para fazer a busca dos arquivos históricos).
Não temos mais desculpas para confiar cegamente e repassar as narrativas que nos são apresentadas. Os meios tecnológicos para buscar a verdade estão ao alcance de todos.