Historiador e Cientista de Dados: mais semelhanças do que se imagina.
Com a digitalização de arquivos históricos, bancos de dados e inteligência artificial, o historiador se aproxima do cientista de dados, e o desafio é a formação e a identidade profissional.

Eram 10 de abril do ano de 1910, no Rio de Janeiro, capital da República. O novo regime enfrentava dificuldades para se estabelecer como legítimo. Revoltas populares, inflação e uma série de outros problemas criavam um clima de que a “República” poderia não ser uma boa ideia, ao contrário. Naquele ano de 1910, havia muita gente ainda saudosa da Monarquia, e não eram poucos os que sentiam assim.
Pois foi naquele dia de abril que a preta Maria da Conceição, de 22 anos, deu entrada na Casa de Detenção do Distrito Federal. Maria da Conceição era lavadeira, ou pelo menos foi o que ela declarou ao delegado de plantão. Ela veio de Paraíba do Sul e declarou não ter nenhuma instrução. Disse também que os seus pais, que havia deixado no interior do Rio de Janeiro, se chamavam Amâncio e Ana Maria, e que não contraíra (ainda) casamento. Seguindo a burocracia policial, o delegado de plantão anotou tudo o que Maria tinha a dizer, assim como os policiais que lhe deram voz de prisão. Anotou, protocolarmente, no livro de registros da Casa de Detenção que Maria teria incorrido no artigo 399 do Código Penal vigente. Bem, isso significava que Maria havia sido presa por “vadiagem”, ou seja, embora tenha declarado que tinha um ofício, o de “lavadeira”, ela havia sido presa porque estava na “vagabundagem”.
O relato acima foi extraído de uma fonte, o livro de registro da Casa de Detenção do Distrito Federal, uma fonte que o Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro — APERJ digitalizou e disponibilizou ao público. Qual o significado disso? Se olharmos com mais atenção, vamos perceber que a digitalização de fontes históricas como esta é uma revolução silenciosa. Aliás, revoluções, na maioria das vezes, têm o hábito de acontecer de maneira silenciosa. Quando um arquivo digitaliza seu acervo e o coloca na internet, ele está contribuindo concretamente para derrubar a barreira da acessibilidade física e intelectual. Agora, qualquer um pode, com um clique do mouse, ter acesso a um tipo de documento antes restrito apenas a pesquisadores, e isso pode ser feito a partir de qualquer lugar do mundo. Mas há mais, bem mais.
O relato da prisão de Maria da Conceição é um pedaço de informação. O livro que registra esta prisão contém também centenas de outras prisões. Estendendo o raciocínio, existem centenas de outros livros iguais a este. Temos, assim, aquilo que os historiadores da Escola dos Annales costumavam chamar de “fontes seriais”. Ao longo do século XX, a história serial permitiu a pesquisa sobre vários aspectos da vida cotidiana de personagens da história antes totalmente anônimos. A lavadeira Maria da Conceição saiu do esquecimento porque um pesquisador descobriu seu registro em uma fonte da Polícia do Distrito Federal. E o que acontece se juntarmos não centenas, mas milhares ou até milhões de registros como este?
Em um passado não muito distante, uma pergunta deste tipo teria ficado apenas no campo da especulação. No século XXI, a coisa mudou inteiramente de figura. A digitalização em massa, o desenvolvimento de técnicas avançadas de mineração de textos e dados e, mais recentemente, a aplicação de outras técnicas de inteligência artificial permitem que encontremos padrões totalmente ignorados pela pesquisa histórica. A computação passa a ocupar um papel central na investigação histórica. Muitos historiadores ainda não perceberam o impacto desta transformação. Sempre gostei do exemplo de Galileu para mostrar uma realidade a que muitos não prestam atenção: muitas vezes, na história da ciência, as ferramentas de pesquisa provocam mudanças tão grandes quanto o aparecimento de novas teorias. Quando Galileu passou a usar um telescópio para observar os fenômenos celestes, ele mudou completamente a maneira como entendíamos o universo. Creio que é isso o que está acontecendo na História. Sou de opinião que vivemos uma época, digamos, “quase dourada”, naquilo que diz respeito às possibilidades de pesquisa para quem se aventura por este ofício (sim, considero a História um ofício) chamado “História”. Nunca tivemos acesso a tanto material, desde que instituições de todo o mundo resolveram digitalizar e disponibilizar seus acervos. A capacidade de armazenamento e processamento destes dados, assim como as técnicas para extrair conteúdo desta montanha de informações, progride também em ritmo acelerado.
Aprendi, no passado, que aquele interessado em alguma pesquisa, seja lá do que fosse, em História, tinha de lidar com o “dilema da escassez”, ou seja, o pesquisador teria de se deparar com fontes escassas, dispersas e de difícil acesso. Se você quisesse pesquisar os registros paroquiais do Rio de Janeiro, teria de ir até o arquivo da Cúria Metropolitana e consultar a documentação in loco. Hoje, a coisa é bem diferente. Estou lidando com esta situação neste momento. Tenho consultado a documentação da Casa de Detenção da Corte do Rio de Janeiro, que antes só poderia ser consultada ao vivo. Esta mesma coleção foi digitalizada e contém dados muito interessantes sobre o cotidiano da Polícia no século XIX e XX.
Sou da opinião de que esta prática, a de tomar contato direto com o documento histórico, deveria ser estimulada o mais cedo possível entre os alunos. Não creio que se ganhe muito postergando este encontro a uma eventual graduação universitária e muito menos a uma pós-graduação. Quanto mais cedo, melhor. Documentos permitem que sejam feitas indagações que considero muito importantes para trabalhar coisas como elaboração de hipóteses, análises de causalidades, confrontação de evidências, entre outros. Ou seja, tudo aquilo que faz parte do trabalho de um cientista, seja um químico, um sociólogo ou um médico, habilidades que fazem parte do trabalho destes e de outros profissionais.
Os documentos da Casa de Detenção da Corte permitem ter acesso a uma grande quantidade de informações sobre a classe trabalhadora carioca. Por exemplo, detalhes como a indumentária dos presos eram registrados; nestes registros, constatamos que este “detalhe”, a roupa do trabalhador, nos dá uma ideia do cotidiano desta personagem. Não havia preso que desse entrada naquela cadeia que não estivesse portando, pelo menos, um chapéu de palha. Este era um acessório cujas funções transcendiam a estética. Usar chapéu era a marca de um código de honra masculino tácito, mas facilmente compreendido por todos os que estivessem nas ruas. O chapéu era sinal de respeito mútuo entre os homens, independentemente do status do interlocutor. Um escravo “sabia qual era o seu lugar” naquela sociedade, mas, mesmo assim, não dispensava o uso do chapéu.
Na verdade, muitos dos tumultos que acabavam em prisão eram iniciados quando alguém cometia a “audácia” de retirar o chapéu de seu oponente. Em muitos casos, isso estava no mesmo nível de uma agressão física, pois o interlocutor, ao “tocar” no chapéu de seu oponente, tocara também em sua “honra”, que, por isso mesmo, exigia um desagravo. E então os dois iam às vias de fato, a Polícia aparecia e o caso terminava na frente de um delegado. Não é nenhuma coincidência, portanto, que a representação do “malandro”, bem como a do “trabalhador”, portassem este mesmo símbolo comum, o chapéu.
Além deste acessório, o terno, o paletó e o colete, todos escuros ou pretos, constituíam quase a indumentária padrão deste trabalhador, ou pelo menos assim era a sua apresentação no espaço público. E aí, com base nestes dados, apresento a seguinte hipótese, que merece ser testada. Historiadores como Pierre Chaunu, entre outros da escola francesa, ensinaram-me o valor da história serial, ou seja, a construção de séries destinadas a investigar empiricamente um dado fenômeno social.
Praticamente todos os presos que identifiquei nos registros da Casa de Detenção da Corte, no final do século XIX, declararam ter alguma ocupação ao serem presos. No entanto, a razão alegada pela Polícia da Corte para a prisão destes era, em grande parte, “vadiagem”. Maria, quando foi presa, trajava uma saia escura e uma blusa rosa. Trabalhadoras como lavadeiras exerciam seu ofício muitas vezes em lugares públicos, como chafarizes, ou habitações coletivas, como os cortiços. Há inúmeras fotografias de época mostrando enormes varais de roupas estendidos nos pátios de cortiços. Talvez Maria tenha sido presa por ter se envolvido em uma altercação em algum destes lugares. Talvez…
Ora, não é difícil deduzir que a construção de uma base de dados com as informações contidas nestas fontes permite identificar padrões muito interessantes, como os códigos de indumentária dos trabalhadores em uma cidade como o Rio de Janeiro, mas também os padrões de policiamento praticados pelas forças de segurança pública, quais as ocorrências mais comuns, a distribuição por sexo, idade, cor e profissão dos presos e assim por diante. E as oportunidades não param por aí. Muitas vezes, o registro de prisão era acompanhado de um registro de ocorrência que, por sua vez, estava ligado a um processo. Ou seja, é possível acompanhar a trajetória de milhares de pessoas pelos órgãos de Segurança e Justiça, cruzando inúmeras bases de dados. Mas nem tudo são flores para o historiador…
Se, por um lado, os avanços da tecnologia de informação oferecem possibilidades quase infinitas de pesquisa e descoberta, por outro lado, as barreiras de formação, a meu ver, são sérias e podem, inclusive, fazer com que a “minha área”, a comunidade de historiadores, perca a oportunidade de aproveitar esse cavalo que está passando selado na frente de todos nós. Explico.
Há um grande gargalo que identifico na formação deste profissional, habituado a um currículo acadêmico pra lá de ultrapassado e engessado. Há uma ênfase desnecessária em disciplinas excessivamente teóricas e poucas atividades práticas, aquilo que os americanos chamam de “hands on”. Alunos de graduação são pouco expostos a visitas frequentes a arquivos para conhecerem de perto como é a atividade de análise e crítica de fontes, assim como sua comparação com a historiografia. Da mesma forma, a exposição a tecnologias como bancos de dados, desenvolvimento de algoritmos de busca e análise de fontes qualitativas e quantitativas coloca a grande maioria dos alunos em uma posição marginal a tudo isso que está acontecendo. O resultado, como não poderia deixar de ser, é a formação de um profissional, a meu ver, mal formado para os dias de hoje e os dias que ainda virão.
Arrisco dizer que habilidades como as citadas acima, além de muitas outras, são interpretadas pela maioria dos meus “colegas” como habilidades excessivamente “técnicas”, que desviam o historiador de sua verdadeira “missão”. Cabe perguntar a quem aproveita este tipo de essencialismo. Muitos historiadores resistem e temem aprender a trabalhar com grandes bancos de dados ou simplesmente aprender a programar porque, assim o fazendo, perderão sua “identidade profissional”. Afinal, o que eu sou, no final das contas, um desenvolvedor que aplica seus truques a estudos de caso tirados da História, ou um “Historiador”? Mas, afinal, o que é um “historiador”?
Guardadas as devidas proporções, é mais ou menos isso o que está acontecendo exatamente agora na comunidade de matemáticos, depois dos impressionantes anúncios de que a Inteligência Artificial vem sistematicamente resolvendo problemas e provando teoremas há muito tempo enfrentados pelos matemáticos. Alguns matemáticos saúdam os novos tempos, outros escrevem extensos posts nas redes sociais com uma narrativa carregada de pessimismo e ansiedade. Disse “guardadas as devidas proporções”, mas, mesmo assim, vejo algumas semelhanças que me autorizam a identificar pontos em comum nas atitudes de ambas as comunidades: “é a identidade, estúpido”, parafraseando a famosa frase do marqueteiro James Carville.
Ok, posso estar errado em tudo o que escrevi acima, mas arrisco uma última provocação: e se o futuro da História for nos transformarmos em um tipo de “cientista de dados”? Dito tudo isso, desço do meu caixote e aviso: este texto contém impressões e erros, o que indica que ele não foi escrito por uma Inteligência Artificial.