Não peça ultrassom de tireoide para quem não tem sintomas.

Por que o rastreio do câncer de tireoide em pessoas assintomáticas traz mais riscos do que benefícios.

Não solicite ultrassonografia de tireoide para pacientes assintomáticos.

Apesar de ser contraintuitivo, o corpo de evidências é extremamente claro: a probabilidade de malefício é muito maior do que a de benefício. Aqui vai um texto sobre rastreio (screening).

Em primeiro lugar, o disclaimer essencial: relatos anedóticos de supostos benefícios não são o suficiente para carregar o peso de recomendações médicas. Rastreios são intervenções que têm literatura extremamente específica. Não basta senso comum.

Dito isso, vamos começar com uma história.

Em 1999, o governo da Coreia do Sul decidiu iniciar um programa de rastreamento gratuito de diversas doenças. Apesar de o câncer de tireoide não estar entre elas, muitos profissionais decidiram recomendar.

Afinal, ultrassonografia de tireoide é um exame seguro e rápido. Por que não fazer, se pode salvar vidas?

Porque nada indica que salva vidas. Eu te explico, mas antes te mostro. Segue o gráfico do que ocorreu na Coreia — aumento de 15 vezes na incidência, sem diferença na mortalidade.

Gráfico da incidência e da mortalidade por câncer de tireoide na Coreia do Sul, de 1993 a 2011: a incidência sobe de cerca de 4 para quase 70 casos por 100 mil habitantes, enquanto a mortalidade fica praticamente parada perto de zero

Como isso é possível? Diagnosticamos 15 vezes mais, tratamos os diagnósticos e as pessoas não estão melhores?

Não só isso: provavelmente elas estão piores. Seja por resultados falsos, tratamentos invasivos, medo, perda de tempo e recursos.

Isso porque as pessoas estavam assintomáticas. Não temos como melhorar a qualidade de vida nesse momento. Só no futuro. Só que, para que isso faça sentido, alguns pré-requisitos são essenciais:

  1. A pessoa ter a doença assintomática (a maioria não tem);
  2. Ser uma doença que vai progredir e trazer danos (uma parte não traz — sobrediagnóstico);
  3. O exame detectá-la acuradamente nessa fase (exames em assintomáticos têm muitos resultados falsos-positivos);
  4. Existirem evidências de que o tratamento precoce reduz o risco de dano (não existem nesse caso);
  5. Os riscos da investigação e do tratamento serem menores que os benefícios (os benefícios não foram demonstrados, e a investigação e o tratamento têm riscos).

Percebam: existem nuances. Não é só ficar fazendo exames periodicamente. Existem rastreios bons, inúteis e perigosos.

Como não temos bola de cristal para saber quem vai preencher as cinco condições, temos que estimar o efeito da intervenção em ensaios clínicos randomizados. Sim, ensaios clínicos. Estudos de acurácia diagnóstica não servem para avaliar rastreios de câncer.

O problema? Não temos nenhum ensaio clínico randomizado avaliando o rastreio do câncer de tireoide. Em outras palavras, não temos evidências de benefícios — restam apenas os riscos.

Esse é o motivo pelo qual a força-tarefa americana de serviços preventivos (USPSTF) recomenda não fazer.

Quadro da força-tarefa americana de serviços preventivos (USPSTF), publicado no JAMA: para adultos assintomáticos, a recomendação é não rastrear o câncer de tireoide (grau D), porque os danos superam os benefícios

Portanto, devemos exercer a humildade de entender que a avaliação de rastreios envolve mais do que lógica. Afinal, todo esse texto é um debate acerca de algo que sequer foi adequadamente estudado. A avaliação crítica de outros rastreios é frequentemente mais complexa.


Publicado originalmente como fio no X (antigo Twitter), em 28 de setembro de 2025.