Não peça ultrassom de tireoide para quem não tem sintomas.
Por que o rastreio do câncer de tireoide em pessoas assintomáticas traz mais riscos do que benefícios.
Não solicite ultrassonografia de tireoide para pacientes assintomáticos.
Apesar de ser contraintuitivo, o corpo de evidências é extremamente claro: a probabilidade de malefício é muito maior do que a de benefício. Aqui vai um texto sobre rastreio (screening).
Em primeiro lugar, o disclaimer essencial: relatos anedóticos de supostos benefícios não são o suficiente para carregar o peso de recomendações médicas. Rastreios são intervenções que têm literatura extremamente específica. Não basta senso comum.
Dito isso, vamos começar com uma história.
Em 1999, o governo da Coreia do Sul decidiu iniciar um programa de rastreamento gratuito de diversas doenças. Apesar de o câncer de tireoide não estar entre elas, muitos profissionais decidiram recomendar.
Afinal, ultrassonografia de tireoide é um exame seguro e rápido. Por que não fazer, se pode salvar vidas?
Porque nada indica que salva vidas. Eu te explico, mas antes te mostro. Segue o gráfico do que ocorreu na Coreia — aumento de 15 vezes na incidência, sem diferença na mortalidade.

Como isso é possível? Diagnosticamos 15 vezes mais, tratamos os diagnósticos e as pessoas não estão melhores?
Não só isso: provavelmente elas estão piores. Seja por resultados falsos, tratamentos invasivos, medo, perda de tempo e recursos.
Isso porque as pessoas estavam assintomáticas. Não temos como melhorar a qualidade de vida nesse momento. Só no futuro. Só que, para que isso faça sentido, alguns pré-requisitos são essenciais:
- A pessoa ter a doença assintomática (a maioria não tem);
- Ser uma doença que vai progredir e trazer danos (uma parte não traz — sobrediagnóstico);
- O exame detectá-la acuradamente nessa fase (exames em assintomáticos têm muitos resultados falsos-positivos);
- Existirem evidências de que o tratamento precoce reduz o risco de dano (não existem nesse caso);
- Os riscos da investigação e do tratamento serem menores que os benefícios (os benefícios não foram demonstrados, e a investigação e o tratamento têm riscos).
Percebam: existem nuances. Não é só ficar fazendo exames periodicamente. Existem rastreios bons, inúteis e perigosos.
Como não temos bola de cristal para saber quem vai preencher as cinco condições, temos que estimar o efeito da intervenção em ensaios clínicos randomizados. Sim, ensaios clínicos. Estudos de acurácia diagnóstica não servem para avaliar rastreios de câncer.
O problema? Não temos nenhum ensaio clínico randomizado avaliando o rastreio do câncer de tireoide. Em outras palavras, não temos evidências de benefícios — restam apenas os riscos.
Esse é o motivo pelo qual a força-tarefa americana de serviços preventivos (USPSTF) recomenda não fazer.

Portanto, devemos exercer a humildade de entender que a avaliação de rastreios envolve mais do que lógica. Afinal, todo esse texto é um debate acerca de algo que sequer foi adequadamente estudado. A avaliação crítica de outros rastreios é frequentemente mais complexa.
Publicado originalmente como fio no X (antigo Twitter), em 28 de setembro de 2025.