Pesquisas pré-eleitorais não são prognóstico.
Por que pesquisas de intenção de voto não devem ser comparadas com o resultado das urnas.
Pesquisas pré-eleitorais não são e nem devem ser usadas como prognóstico para resultados eleitorais.
A justificativa do meu argumento se dá pela abordagem estatística que normalmente usamos para fazer inferências utilizando dados de pesquisas (surveys): inferência para populações finitas, em que a população-alvo é muito bem definida tanto no espaço como no tempo.
Ou seja, as inferências são feitas para uma população num tempo bem definido t. Por exemplo, o Censo sempre utiliza uma data de referência para população. No caso do Brasil, é entre os dias 31 de julho de 2022 e 1 de agosto de 2022. Isso fica muito claro no questionário do Censo:

Portanto, a inferência que se faz com base em pesquisas é para a população definida num tempo t. No caso de pesquisas eleitorais, isso é até um pouco flexibilizado para ser num período de tempo, que corresponde ao período de coleta dos dados.
Dessa forma, o tipo de inferência que se faz nessa abordagem não permite, por exemplo, extrapolar para a população em um outro período de tempo, digamos t+k, para qualquer k>0. Para isso, é necessário utilizar-se de modelos preditivos.
Claro que qualquer um pode fazer essa comparação de resultados de uma pesquisa no tempo t com uma população no tempo t+k, mas é preciso fazer certas suposições para tal comparação. Uma suposição mais óbvia é que a população não sofre alterações significativas entre t e t+k.
No entanto, dificilmente temos como saber empiricamente se essa suposição é verdadeira ou não, a não ser com estudos bem específicos para isso, como estudos longitudinais. Além disso, há evidências na literatura que isso não é verdade em muitos casos.
A ANES nos EUA é uma boa fonte de dados para isso, por exemplo. Devo confessar que eu desconheço estudos desse tipo no Brasil, mas me parece haver uma noção que para certos cargos, como deputado, senador e até mesmo em alguns casos governador, essa suposição não se sustenta sempre.
Por conta disso, eu costumo tomar uma posição mais conservadora em dizer que pesquisas não são prognósticos, pois dificilmente sabemos se as suposições para que isso possa ser feito se sustentem ou não.
Mas não tenho grandes problemas com pessoas que fazem esse tipo de comparação, desde que coloquem claramente quais são os pressupostos por trás disso. E é aí que eu tenho meu pet peeve, pois dificilmente eu vejo esse tipo de esclarecimento sendo feito.
No entanto, mesmo deixando muito claro as suposições feitas para se comparar estimativas de pesquisas pré-eleitorais com os resultados da eleição, eu receio que acaba-se entrando em uma seara muito perigosa, abrindo uma caixa de Pandora.
Não só será preciso colocar asteriscos em casos em que as suposições claramente não são satisfeitas, como um público mais leigo pode interpretar (como de fato muitos interpretam hoje em dia) que esse tipo de comparação pode ser feita independentemente do tempo entre a pesquisa pré-eleitoral e as eleições. Por exemplo, há diversas pessoas no Twitter falando para seus seguidores tirar prints das pesquisas divulgadas nos últimos dias para depois comparar com os resultados das eleições.
Acho que nem mesmo quem ache adequado fazer comparação de pesquisas realizadas às vésperas das eleições concorda com isso. Justamente para se evitar esse tipo de comparação indiscriminada, eu prefiro manter um posicionamento de que não se compara maçãs com laranjas.
Ou, nesse caso, não comparar resultados de pesquisas para uma população em um tempo t com resultados censitários para essa mesma população num tempo t+k (k>0), por menor que seja k.
Publicado originalmente como fio no X (antigo Twitter), em 13 de setembro de 2022.