Pseudociência: “por que não tentar?”.

Três motivos para cuidado com práticas sem evidência: perda de tempo, perda de dinheiro e custo de oportunidade.

"Mas [minha pseudociência favorita] não faz mal algum, porque não tentar?"

"Vai que funciona?"

Tem muita coisa segura e prazerosa que a gente faz mesmo sem evidência (ouvir música, pintar, comer pipoca).

Mas nem tudo é tão inócuo quanto parece.

3 pontos de cuidado

1. Perda de tempo

Tempo é um commodity limitado e valioso.

A gente não pode viver em função de "tentar fazer coisas que resolvam ou amenizem nossos problemas".

Temos obrigações, responsabilidades, necessidades, vontades.

Investir em promessas mentirosas prejudica isso tudo.

É importante destinar tempo para cuidar da própria saúde, sim.

Mas tudo tem limite.

E dentro desse período limitado, escolhemos o que tem + probabilidade de ser realmente útil para nossas vidas.

A tentativa na pseudociência impede outras atividades prazerosas e úteis da vida.

2. Perda de dinheiro

A tentativa no ineficaz representa óbvios gastos desnecessários.

Em alguns casos, a pseudociência sai baratinha (ou até livre de qualquer custo financeiro mesmo).

Em outros, a brincadeira sai assustadoramente cara.

Exemplo recente é o tratamento milionário que promete REVERTER doenças neurológicas (e até câncer).

Alegações extraordinárias sem o menor respaldo.

Mas nem precisa ser tão extremo.

No Brasil, pequenos custos já impactam no orçamento da maioria das famílias.

E no SUS também.

3. Custo de oportunidade

Muita gente que procura por soluções não-convencionais desistem ou deixam de buscar por soluções comprovadamente eficazes.

A terapia testada, em vez de complementar, se torna uma ALTERNATIVA.

Eis aqui o principal malefício das pseudociências.

Imagine uma paciente pós-mastectomia.

O médico orienta quimio por precaução, caso células metastáticas não tenham sido removidas.

Mas ela recusa.

Acredita que o extrato de viscum é melhor, pois é uma "planta anticâncer" natural e tem até "evidências" de acordo com Dr. Google.

Veja: não há nada inerentemente errado em cogitar o uso de tratamentos com pouca evidência.

Tudo depende do contexto.

O problema real é enganar, persuadir, e prometer mentiras.

Isso tem um potencial enorme pra machucar as pessoas, e causar mais malefício do que benefício.

Quando a probabilidade de dano é certamente baixa, o custo não é considerado um problema e a prática não vai impedir o acesso a tratamentos eficazes, ok.

Aí o que entra em jogo são os valores e preferências do paciente.

Mas ele precisa de alguém honesto e ético nesse processo.

No fim, essa é a diferença principal entre a PBE e o charlatão.

A prescrição racional se baseia na melhor evidência, mas não se limita ao que é de alto nível.

A premissa é cuidado de valor, com transparência e sem abusar de técnicas de persuasão.

O charlatão é o oposto disso.


Publicado originalmente no X, em 7 de agosto de 2023.