Retatrutida: o remédio mais eficaz já visto contra a obesidade.
O estudo de fase 3 publicado no New England Journal of Medicine mostra perdas de peso que até agora só a cirurgia bariátrica alcançava.
Ontem tomamos conhecimento do medicamento com maior eficácia já vista para obesidade (superando Ozempic e Mounjaro):
- Praticamente TODOS (97,4%) os pacientes conseguiram perder peso.
- 73% tiveram perda de 15%, que aumenta drasticamente a chance de "curar" o diabetes.
Esse é o poder da retatrutida.
Retatrutida é um medicamento parecido com os já aprovados pela Anvisa, como Ozempic e Mounjaro. A diferença é que ela age como um agonista em três receptores hormonais ao mesmo tempo: GLP-1, GIP e receptor de glucagon. Por isso, tem sido chamada de "agonista triplo" ou "triplo G".

Em 2023, um estudo de fase II já empolgava: em 24 semanas, a menor dose (1 mg) já reduziu 7,2% de peso. Com 8 mg, a redução média foi maior que 17%. Em 48 semanas, a dose de 8 mg reduziu mais de 22% de peso – efeito jamais visto antes para um tratamento não cirúrgico.

Agora acaba de ser publicado o estudo de fase 3 (TRIUMPH-1), no prestigiado New England Journal of Medicine. 2.339 adultos com obesidade (sem diabetes) foram divididos em 4 grupos: um grupo recebeu placebo, outros 3 receberam retatrutida em 3 doses (4 mg, 9 mg e 12 mg). E os resultados foram impressionantes.

Em 80 semanas, a dose de 4 mg reduziu 17,6% do peso inicial. Com 9 mg e 12 mg, a redução foi de 23,7% e 25%. Em termos absolutos, isso representa cerca de 28 kg a menos com a dose mais alta.
Mas o mais impressionante nem são essas médias.

As análises mais informativas são as categóricas, que respondem a uma dúvida crucial: qual proporção de pacientes vai ter uma perda de peso clinicamente relevante? Resposta: praticamente TODOS.
Com 12 mg:
- 94% perderam pelo menos 5%;
- 80% perderam pelo menos 15%;
- 53% perderam pelo menos 25% (!).
Mais da metade dos pacientes perderam 1/4 do seu peso inicial, e 37% dos pacientes perderam pelo menos 30% do peso corporal. Até então, esse grau de perda de peso era praticamente exclusivo da bariátrica.

A título de comparação, a intervenção dietética mais efetiva para perda de peso é a seguinte:
- atividade física intensiva (mais de 10 mil passos por dia);
- grande déficit calórico (dieta de cerca de 850 kcal por dia por 3 a 5 meses), com shakes que substituem refeições;
- apoio multidisciplinar.
Qual é o resultado disso?

Em 1 ano, a perda de peso é em média de 10 kg. Aproximadamente 24% das pessoas perdem pelo menos 15% de peso corporal. Sim, só com "dieta e treino". Isso não é pouco, não. É INCRÍVEL. Essa é a intervenção comportamental mais eficaz já vista, demonstrada no DiRECT trial. Mas não chega aos pés da retatrutida.
E não é só sobre peso na balança ou aparência. Perda de peso dessa magnitude muda a saúde das pessoas da água pro vinho:
- Em pacientes com artrose de joelho, a dor reduziu em até cerca de 60% com retatrutida.
- Em pacientes com apneia do sono, foram cerca de 33 eventos respiratórios por hora a menos (contra cerca de 10 no placebo).
- Em quem tinha pré-diabetes, cerca de 90% dos pacientes tratados com retatrutida voltaram a níveis normais de glicose.
- A pressão arterial caiu cerca de 10 mmHg, os triglicerídeos cerca de 38% e a PCR (marcador de inflamação) cerca de 60%.
Tudo isso acompanhado de melhora significativa na qualidade de vida, física e psicossocial.

Quando um tratamento é tão eficaz que tira metade dos pacientes da faixa de obesidade, reverte o diabetes e melhora diversas comorbidades, ele está em outro patamar. É uma mudança de paradigma. Com uma única droga, você trata (e previne) múltiplas doenças ao mesmo tempo e ainda reduz o fardo associado à polifarmácia.
"Mas se vai ser caro, o que adianta?"
Infelizmente, vai ser caro, pelo menos enquanto a patente estiver de pé. Mas há um lado positivo: outras drogas menos eficazes podem abaixar o preço com a entrada da retatrutida no mercado. Isso inclusive aumenta a chance de esses outros medicamentos serem incluídos no SUS, visto que um dos maiores empecilhos tende a ser o alto custo.
Não é um tratamento isolado que vai resolver o problema da obesidade, assim como estatinas não resolveram a doença cardiovascular e a metformina não resolveu o diabetes. Mas não dá para negar que esses medicamentos são peça fundamental nessa difícil missão de melhorar a saúde (e a longevidade) de pessoas com obesidade.
Publicado originalmente como fio no X (antigo Twitter), em 30 de setembro de 2026.