O Abismo na Percepção do Estudo da Polilaminina


Brasil em êxtase com a polilaminina, enquanto especialistas e associações pedem cautela. O que explica esse abismo na percepção? A meu ver, 3 pontos:

  1. O que é “devolver movimentos”
  2. Quais as evidências até agora
  3. Riscos envolvidos

1. O que é “devolver movimentos”

O público acha que pessoas para/tetraplégicas (sem nenhuma perspectiva de melhora) receberam polilaminina e melhoraram. Nesse caso, a evidência que funciona seria óbvia a olho nu. Porém, NÃO é nessas pessoas que ela está sendo aplicada . Na tabela que eles divulgam no estudo, 4 das 8 pessoas foram tratadas em menos de 1 dia. Todos receberam em menos de 6 dias. E todos que receberam a polilaminina também receberam o tratamento padrão: cirurgia, descompressão, etc. E isso muda tudo .

Nessa fase prematura, não é possível ter um diagnóstico certo de quais pessoas realmente perderam movimentos “sem perspectiva de melhora”, e quais têm. Os pesquisadores reconhecem esse problema no relatório preliminar não-publicado que eles divulgaram.

Por que isso importa? Porque a expectativa estimada de melhora motora de pacientes nessa fase da lesão é de ~78% melhorar. Não é 0%, como o público imagina. Nem 15%, que a pesquisadora diz. ~15% seria se tivessem certeza do diagnóstico. Mas não há como ter certeza nessa fase.

Só para dar exemplo, no texto eles dizem que fizeram diagnóstico com 4 testes: VAC, DAP, LT e PP em S4–S5. A info relevante é que esses 4 testes precisam do paciente em trauma mas consciente suficiente para responder. Só isso já pode induzir um viés de maior chance de melhora .  Há uma tabela anexada ao relatório com uma lista de características de exclusão que eles usaram. São critérios para ver quem se enquadrava no perfil buscado pelo estudo. Isso é normal. Mas a depender dos critérios de exclusão, você pode de novo afetar as chances de melhora. 

2. Quais as evidências até agora

Temos quatro estudos:
– 2 experimentos com ratos – em 2010 e 2014
– Em 2025, um estudo veterinário publicado sobre 6 cachorros
– Em 2024, um relatório preliminar sobre 8 pessoas

Vou focar nos 2 estudos mais recentes.

O estudo publicado sobre 6 cachorros

– Eram cães com problema CRÔNICO de mobilidade, e que não melhoraram com tratamento padrão depois de semanas/meses em avaliações espaçadas para ter certeza do diagnóstico.
– Eles avaliaram a passada dos cachorros no começo e após tratar.
– A escala de avaliação ia de 0 (movimento nenhum) até 6 (movimento normal)
– Na média, no começo os cachorros pontuavam 2,2. Então na média eles não começaram com mobilidade zero.
– Depois do tratamento, em média passaram para pontuação 3,0. Melhorou, mas longe de 6 (normal).

Talvez seja uma evidência de algo. Mas não é impressionante. E tem outros problemas:
– Eles não receberam injeção só de polilaminina. Ela foi misturada com outros dois compostos que auxiliam em cicatrização. No artigo eles reconhecem que não dá para atribuir causa só a ela.

– O periódico científico de veterinária que esse artigo foi publicado aparece em listas de periódicos predatórios (periódicos predatórios são periódicos com critérios baixos de qualidade e que o pesquisador pagando ele tem uma chance quase garantida de publicar)

Isso quer dizer que é uma fraude? Não. Mas não inspira confiança. Notem que o momento da aplicação é diferente. Caso crônico em cachorros com mobilidade parcial, versus caso tão recente que não é possível ter diagnóstico certo em humanos. Vamos para o estudo em humanos . 

O estudo em 8 humanos:
– Todos casos de lesão muito recente que dificulta diagnóstico. Nesses casos, esperamos melhora em ~78%. Seriam ~6 melhoram e ~2 não.
– Achados: 6 melhoraram, 2 morreram. E +1 que melhorou morreu depois.

Pode funcionar? Sim. Essa evidência é forte? Não. Com uma amostra de 8 pessoas todas muito recentes, mesmo se todos os 8 tivessem melhorado e nenhum morrido, ainda não seria uma evidência forte. A chance de todos melhorarem já era muito significativa para os padrões científicos de evidência. Mas nem foi isso que ocorreu . 

3. Os riscos envolvidos

Você está diante de pacientes que passaram por um trauma grave, mas que ~78% vão melhorar ante o diagnóstico inicial com o tratamento padrão atual. Você realmente acha que injetar rápido algo pouco testado na medula dessas pessoas não tem risco? Tem risco, sim. O público está ignorando riscos porque acham que a pessoa já está com paraplegia irreversível. Mas não é esse o perfil de quem se estudou até agora! O diagnóstico deles nem é claro, e o tratamento padrão é melhor do que imaginam. A maioria já iria melhorar. 

Um estudo com grupo controle envolveria submeter os dois lados ao tratamento padrão, que já funciona bem. Só um lado recebe o padrão + polilaminina. Sabendo que no começo ~78% melhorará só com padrão, não é óbvio qual é melhor, o que toma injeção experimental na medula ou não.  Na metodologia científica padrão, os estudos iniciais com amostras tão pequenas servem apenas para testar perfil de segurança (fase 1) – testar se é eficaz em humanos vem depois. Nessa fase, evitar o dano é mais importante. Atualmente nós não sabemos nem se funciona, nem se é seguro.  A maioria dos estudos que entram em fase 1, que é o estágio da polilaminina, não chega até a fase 3. E boa parte dos estudos que chegam na fase 3 não são aprovados. Segundo esta revisão, só ~15% dos estudos Fase 1 chegam até a aprovação. Mas depende da área, em oncologia é ~3%.

Por fim, um comentário sobre o estudo não ter sido publicado ainda. Isso é algo que o público ignora, mas para pesquisadores é muito importante. Vou dar um exemplo para vocês de um problema tosco – mas sério – no relatório preliminar deles que até eu consegui identificar: o estudo diz: “O Participante 1… desenvolveu pneumonia severa. A morte aconteceu no 5º dia de tratamento.” No mesmo texto, há gráficos para mostrar a progressão dos participantes. O Participante 1 morreu no 5º dia, mas 300 dias depois ele ainda tinha progressão motora?

O mais provável é que isso foi alguma desatenção no texto ou gráfico. Mas erros são normais na ciência! Alguns menores outros maiores, por isso PRECISA de revisão. Passando pela revisão de uma revista científica de qualidade a chance de um erro desses ser publicado diminui. Muitos vão comentar ignorando o que escrevi e atacando minha formação, chamar de inveja. Não inventei nada desse fio. Associações científicas e médicas estão pedindo cautela, muitos bons especialistas também. Como professor, meu objetivo é ajudar o público amplo a entender.


Para finalizar, seguem alguns perfis de especialistas e comunicadores que estão fazendo divulgação responsável sobre esse tema: Igor Eckert, Leo Costa, Mell Ziland, Vitor Borin, Mari Varella, José Alencar, Paulo Lotufo, Josikwylkson Costa Brito.

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Thomas Conti

Thomas Victor Conti é doutor em economia, cientista de dados, professor do Insper e do mestrado profissional do Instituto de Direito Público (IDP-SP).

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